Desde pequena Magali gostava de brincar sozinha.
Dizia em sua tenra inocência que evitava o contato, pois as outras crianças gostavam de perturbá-la.
Nas reuniões de famílias, encontros de amigos e outros eventos que, por ventura, pudessem reunir crianças de sua mesma faixa etária, Magali sempre estava sozinha.
Sua mãe preocupava-se com sua solidão, mas Magali mesma nem sequer se percebia só.
Talvez fosse.
Chamava a atenção pelo seu porte, sua delicadeza e seu carisma inconfundível.
Embora não fosse uma criança sociável a outras, gostava de se sentir a mais querida para os adultos.
Esse tempo foi passando e Magali chegou à adolescência sempre muito popular nos lugares que freqüentava. Ela, na verdade, não tinha verdadeiros amigos. Somente pessoas que admiravam sua beleza, bom-humor e sua personalidade. As relações que costumava construir eram as mais superficiais possíveis.
Magali não tinha crise sentimental, não trazia consigo dúvidas existenciais, era perfeitamente segura de si.
Talvez fosse.
Por se encontrar nesta posição tenha se transformado em uma pessoa mais severa com as outras.
Não era raro encontrá-la em momentos de depreciação àqueles que não lhe agradavam.
Nos relacionamentos, Magali era sempre a desejada, a cortejada, mas vivia repetindo o mesmo discurso dizendo que não serviria para ser de ninguém.
Talvez não seja.
Seus namorados enlouqueciam quando eram descartados por um novo pretendente e ela afirmava que eles haviam, de certo, criado expectativas sobre ela e não que ela propositalmente tenha feito algo que os machucasse.
Talvez não tenha.
Para ela, trair a si mesmo é a pior das traições. Por isso, fazia aquilo que tinha vontade sem respeitar os acordos e concessões que havia selado com seus parceiros.No passar dos tempos, muitos beijos e relacionamentos depois, a vontade que muitos tinham em poder tocá-la e desfrutar de algo com ela foi diminuindo. As pessoas começaram a temê-la por ser vista como uma grande partidora de corações.
A impressão que se tinha era que na realidade Magali não era nada daquilo que buscava e dizia ser. Ela já não era especial. Para muitos, passou a ser sinônimo de dor.
Magali começou a perceber o quanto tinha sido somente ela. O quanto as pessoas também criam imagens suas, de características que ela mesma nunca ousou portar.
Magali percebia que havia na verdade uma essência em si mesma e uma outra construída, por sua culpa ou do que quer que seja.
Magali pensava no que fazer para não ser mais vista sob aquela forma. Aquilo definitivamente não correspondia à sua realidade. Ela não se identificava com as qualidades que a ela eram atribuídas.
Magali amava um homem.
Ele compartilhava da mesma opinião da maioria.
Agora ela se encontrava em um dilema: como provar algo se todas as provas já existentes atestavam contra tudo o que ela dissesse?
Magali estava verdadeiramente só e em uma enrascada.
Não gostava de estar nessa situação, porque sabia que, no fundo, era reflexo de tudo que havia dito e feito.
Temia ser tarde demais.
E talvez fosse.
Jorge Braga Jr.
2 comentários:
Bem legal!
Puts,caramba,não vejo o que dizer depois do que li,show....
Existe concerteza muitas delas
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