MÚLTIPLO EU

Escrever é ao mesmo tempo dádiva e tragédia de servir ao outro e a si mesmo no intuito de amortecer os tropeços do caminho.



sexta-feira, 24 de junho de 2011

Trapo usado, recado dobrado

Quarto fechado
Corpos suados
Amor pronunciado
Falso recado
Coito interrompido
Desejo cedido
Loucura imposta
Não existe resposta
Juntar as vestes
Sem olhar ao lado
Trapo usado
Feito roupa de criança
Sutil esperança
Romance bem-vindo
Porta fechada
Brilho sorriso
Mensagem recebida
Cantada assumida
Encontro marcado
Fé renovada
Luz nos olhos
Palpita o peito
Vestes em punho
Querer sem rodeios

Just call my name

Não é mais para correr atrás
Bebê, quem sabe encontre alguém
Para chamar de nem, baby ou honey
Querida ou até mesmo nanny
Sou seu gatinho, docinho
Meu bem
Ou qualquer outro apelido que convém
Também eu invento nomes
Crio meus neologismos
Onomatopeias interessantes
Junto linda
À princesa, gata
Fofucha, rainha e rata

Flor ou qualquer dissílaba repetitiva que for
Momo, nesta suave e apaixonada língua
É de meu amor

Chame a quem quiser
Ame a quem chamar
Just call my name
And I´ll be there

Trailer

Me acostumei
De tanto ser assoalho
Açoitado
Pisado
Amassado
Já começo um novo capítulo prevendo um esperado final
E não é mal
É premonição
Ao que é ruim
Ao que é bom
É a mania de insistir
Saber que aquilo ali tem fim
E outro episódio virá
Assim que o letreiro acabar

Meu presente

Vem aqui
Naquele abraço apertado
Agora cem por cento, completo,
Quem sabe sedento
Pelo aquilo que ainda não tivemos a oportunidade de ter
Seu rosto marcante, suave
Seu jeito, caminho distante
Embora prometa mudar sua imagem
Apresenta entraves pro meu caminhar
Eu sei que a dor é recente
O amor, ausente
Pare e pense no que já foi
O passado já era
Ainda há pendências
Que temos de nos cobrar
E o futuro pertence a nós
A mim, a você e a quem mais aparecer
Então, vem sem medo
Sem medo de ser
Meu presente.

Falsa honestidade

É bem mais fácil inventar desculpas
Isentar-se de tomar decisões
Entregar nas mãos do outro, ou de qualquer fato novo toda a responsabilidade
Deixar de lado
Não guardar rancor
Não olhar nos olhos
Só virar as costas

E você vai, e eu percebo, aos poucos, essa dor
Os sintomas, aos poucos, me consumindo, a dor
Novamente e assim por diante
A sua mensagem ainda não chegou

Nem mais sei se espero que virá
Trato, então, de ficar só
Recolhido à minha lua
Não sou o que você pensou para virar a rua
Também não quero ser uma mera projeção sua

Serei meu próprio existir
Foi bom tentar
Valeu arriscar
Entendo não poder ser agora
Entendo não poder mais, quem sabe jamais
Ou até você, de novo, me chamar.

domingo, 12 de junho de 2011

Cenas curtas II

A - Eu vi sua mensagem. Estranhei, de verdade. Saudades?

B - Disse algo demais? Algo que não deveria?

A - Não, não mesmo. Vem cá, porque você sumiu assim de repente? Quando eu já estava me acostumando a ter uma outra pessoa, a me dedicar um pouco mais a alguém. Foi outra pessoa? Pode dizer. Ninguém desacelera assim do nada.

B - Prefiro não dizer. Acho que em nada alteraria o que eu sinto agora.

A - Como você pode dizer isso? (Ri). Eu me dediquei a você. Parei de fazer coisas que eu julgava importante porque realmente pensei que valeria a pena. Me preocupei para no fim... nada.

B - Olha, eu estava confuso. Eu não sabia o que eu estava sentindo. De verdade. Precisava de um tempo para pensar com calma e não errar mais uma vez.

A - Tanto tempo assim? (Com ironia) Já chegou a um denominador comum? Eu já.

B - Sinto falta de conversar com você. A gente tinha uma "vibe" muito bacana.

A - Eu sei disso. Logo, tratei de esquecer. Meu orgulho é meio assim mesmo. Não procuro, não vou atrás. O que não quer dizer que não tenha pensado.

B - Você era muito ocupado. Ficava pensando se teria o tempo que eu queria para mim. Queria você por inteiro e não ficar contente com o que sobrasse. Gostei de você, de verdade.

A - Nem sei o que dizer. Você me fez acreditar e desacreditar nas pessoas em frações de segundos. Olha, uma coisa eu te digo, pode ficar tranquilo. Não deixou mágoas. Pode se despreocupar. Eu com certeza não estou bem agora, mas sei que eu vou melhorar.

Cenas curtas I

1 - Posso te fazer um pedido incomum? É uma coisa que com certeza você vai achar estranha no começo mas você vai ver depois que não tem nada demais?

2 - Como assim?

1 - Eu queria dormir com você.

2- Ahn?

1 - É. Dormir com você.

2 - Você sabe que eu tenho namorado e não ficaria bem esse tipo de coisa.
Olha, e a nossa amizade? Por favor não confunda as coisas.

1 - Mas eu não tô confundindo. Eu quero d-o-r-m-ir com você. Não disse nada além disso.

2- Eu não tô entendendo. Não conseguiria dormir com alguém sem pensar em fazer nada.

1 - Aí que tá. Onde eu queria chegar. O que eu sinto por você vai além disso, sabe. Além da nostalgia, da lembrança de te ter por perto. Tenho saudade da nossa amizade mais que tudo e não estava sabendo como te falar. Você some.

2 - E você vive abarrotado de trabalho.

1 - Pra não lembrar das coisas que tento esquecer. Do tempo em que eu vivi sem grandes responsabilidades, do tempo em que eu fui realmente feliz.

2 - E você agora não é feliz?

1 - Sou, mas não da forma como eu gostaria de ser. Então, dá pra dizer que ainda não sou o que eu realmente quero ser.

2- Você está confuso e tenho medo que acabe confundindo mais as coisas.

1 - Não se preocupe, sou maduro demais pra minha idade. Você sabe. Não corro esse perigo. Eu lembro de quando você disse que sempre pensou que a gente daria certo.Mas uma pergunta vive sempre martelando na minha cabeça. Porque não deu?

2 - Não sei. Acho que não era pra ser.

1 - Vejo você com pessoas que não lhe agradam, que te fazem coisas que você não gosta e me pergunto o que te leva a fazer isso.

2 - Saiba que eu vivo me perguntando isso todo santo dia. Sei lá. Às vezes não me reconheço.

1 - Eu também, às vezes, não me reconheço. E não te conheço também (risos).

2 - Acho que gosto quando me cortejam, de ser incomum.

1 - Meu mal é ser orgulhoso. Porque não corri atrás dessa possibilidade?

2 - Talvez não acontecesse nada. A gente nunca sabe. Posso te dizer uma coisa?

1 - Pode. Já estou na desvantagem mesmo.

2 - Eu sempre te admirei, sabia. Seu jeito, sua beleza, sua inteligência, sua vontade de fazer as coisas...

1 - Meu medo é esse: essa vontade que me move a fazer pelos outros me impedir de ser feliz.

2 - Não impede, não.

1 - Ah, você me ajudou tanto. Nem sei como te agradecer.

2 - Não precisa, fiz de coração. Eu admiro você.

1 - Eu também admiro você.

2 - Agora eu posso te fazer um pedido?

1 - Claro. Claro.

2 - Me dá um abraço.

1 - (Abraçando) E você acha que eu sou louco de não dar. (Eles se abraçam e se deitam já tomados pelo sono. A conversa vai ficando baixa. São altas horas da noite e já não respondem ao que se perguntam.)

Ponto de vista

Vontade de ir embora sem deixar rastros
Subir no primeiro trem que aprecer rumo a qualquer lugar que me leva pra longe
de tudo isso aqui que me cerceia
que me impede de me mostrar ao que vim
Que pressiona minha liberdade, testa meus limites.

Quero ir sim,
não por medo,
não é fugir ao que sou responsável,
mas por querer me aventurar, me conhecer mais além do que posso ser aqui.

Encarar de peito aberto o que vier,
porque sei que o que virá, virá diferente
Será desafiador
Gosto de ser solitário
de enfrentar sozinho meus obstáculos
Gosto de ser quem sou
mas não quero me ver mais daqui de onde estou.