MÚLTIPLO EU

Escrever é ao mesmo tempo dádiva e tragédia de servir ao outro e a si mesmo no intuito de amortecer os tropeços do caminho.



domingo, 27 de março de 2011

Eu quis te dar ouvidos
Deixar falar coisas sem sentido
E criar um para mim
Ao seu tempo
Você se reencontrou
Achou artigos que não portava
Vestindo roupas que não usava
Você mudou


Você mudou e eu fui junto
E pode parecer absurdo, mas me moldei
Quis te seguir como um site de relacionamento
No entanto, me anulava a partir do momento que não dizia o que você não queria ouvir
Eu só tentei me redimir
Acertei e errei, mas não fugi
Você brincou, não se entregou
Já foi e foi bom, você morrer pra mim.

Morreu sim e não levou contigo a esperança
Agora é pra mim uma vaga lembrança de alguém que não se deve recordar
O amor se foi e eu fui-me embora daqui deste lugar
Estou na rua
No meio da chuva
E só quero me reencontrar
Você mudou

E eu vou me achar.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Tipo um rei

Eu confesso
Há um rei na minha barriga
Que não me deixa afogar as minhas angústias
Que não permite meus dedos de discar seus números
E me arriscar, mesmo que seja para ouvir um alô assim, despreparado.
Ele talvez queira me proteger
Afinal só reina naquilo que pode conhecer
E coração dos outros é terra que ninguém pisa, já ouvi dizer
Mas porque insistem em esmagar o meu?
Ou até ignorar sua presença, existência
Ele só quer me proteger, eu sei
Mas já não quer me permitir ir além
Nesta censura que me impõe
Na ditadura de meu próprio ser
Não quero fugir, me exilar de mim
Parece, tudo indica, que me acostumei ao seu jeito de me esconder
Uns dizem solidão, é bom
Para poucos
Sentir-me só no meio da multidão
Já é hábito regular para mim
No entanto, tem horas que calo
Tento escutá-lo
Ele não para, se revira lá de dentro
E cá de fora eu respondo com atitudes inesperadas
Não espero consenso
Sempre me convenço
Ouço sua voz: “Te protejo”
Então, entendo
Mas me dá couraças, armaduras que são pesadas demais para carregar
Não são todas as horas em que quero vesti-las
Percebo-me em momentos que são raros
Em que quero andar nu por aí
Isento de rótulos, pré-conceitos
Ele me inferniza com seus comentários
Ácidos, chocantes e até irrelevantes
Ele pode ser até meu mal
Mas sempre há o outro lado da moeda
Ele é que nem a gente
Esconde mistérios, é complexo
Não sabe o que quer
Eu, e isso já aconteceu
Enfrento, vou além, me questiono
Me divido se devo tirá-lo ou não do seu habitat profundo
Ele me engana, é sacana
Quando tudo finge estar bem
Olha quem aparece em cena
Ele, despojado de ouro e brilhantes
Doido para me arrumar encrenca
Quando te olho de lado, tenha certeza
É ele quem me puxa
Quando te passo a perna
É ele quem faz força para eu te derrubar
Não vou apedrejá-lo
Ele quer minha defesa
Não quer que eu me apresente
Assim, frágil e só
Quer estar ao meu lado
Ao passo que se encontra dentro de mim
Só quer me ajudar, eu sinto
Mas não me deixar sentir, então minto
Como pode um criador tornar-se presa de sua própria criação
Ele é meu algoz
Ele é meu senhor
Se é que ele é concreto, de fato
Eu acho que vejo uma fórmula, sua composição
Ele é etéreo
Mas é um misto do que chamamos receio, medo, rancor e frustração.

19/03/2011

quarta-feira, 2 de março de 2011

Valeu

“Há que se acostumar
Com as voltas que a vida dá”
As pessoas me parecem assim,
Tão plástico, descartável.

Quem é de verdade, eu sei, vai ficar
Tem medo, às vezes coragem, não foge
Se for real há que perdurar

E eu não vou mais querer conversar
Se teu mundo é assim tão fútil,
Leva e traz
O meu sou eu que faço
E dou minhas coordenadas pra quem entrar no meu espaço

Vai lá, vai lá,
O retorno é imediato, vem sempre em dobro, eu sei
E lembre disso na hora de plantar

Posso ser teu eterno desgosto
E na hora do remorso
A minha lembrança irá abater a sua memória
Como estacas oportunas e sórdidas

O seu desejo já não irá de encontro ao meu
A saudade que sentia, é passado, caiu no breu
De volta ao começo, eu me restarto
Digo valeu
Do teu erro, do teu pecado, ingrato
Pode nascer meu verdadeiro eu.