MÚLTIPLO EU

Escrever é ao mesmo tempo dádiva e tragédia de servir ao outro e a si mesmo no intuito de amortecer os tropeços do caminho.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Teu sorriso é meu ano novo

Teu sorriso moreno cativante
Me deixa fraco,
Tomado por um alucinante remédio
Grato, um presente que me deu
Um trato de amar e ser quem cuida de mim

A espera de uma companhia
Ao carro que me leva a longe
Do medo de estar só, distante
Eu quero te ter além daqui

E no ano que vem
Eu pergunto: onde iremos
Onde isso vai dar
Meus fogos de artifício vão te encontrar
Nessa noite iluminada

Tenha ciência que meu pensamento é seu
E que espero tudo de bom
Mentalizar na hora da virada
Que eu sei que o retorno vai chegar
E o nosso destino vai se encontrar
Nos deixar de alma lavada

Sensação tola

Sensação tola de forçar conversas
Simular encontros disfarçados
Desencontrar anseios às vezes fracos servidos de um tempero hostil e vago
Um sentimento irremediável
De um atroz desapego ao desejo sincero de criar um elo
Um desejo de sombra que vagueia e ronda de perto
Um querer que afasta e aproxima nem sempre o que é belo

Um labirinto onírico
De sonhos entremeados de lama e perdão
Um sofrimento, devassidão
Preenche vazios efêmeros, curta emoção, um dia
Uma alegria virá na rodovia
E meu carro será meu guia a um destino certo
Que a positividade esteja no final da estrada
Ou quem sabe descubra durante a caminhada.

Francisco se ajeita.

Rio de Janeiro, 04 de Outubro de 1964.
Nascia ali naquela pequena casa do subúrbio carioca, o pequeno Francisco, em homenagem ao dia do santo de mesmo nome.
Desde pequeno, autêntico, Francisco já corria quando os outros de seu tempo e tamanho, engatinhavam.
Já falava, enquanto os outros balbuciavam palavras sem sentido.
Já, lia quando os outros ainda não sabiam sequer completar frases.
Era um menino a frente do seu tempo.
Com o chegar das espinhas, cravos e demais preocupações tolas, tinha um modo peculiar de paquerar quem quer que fosse. Era direto, engraçado e por isso conquistava a todos com sua espontaneidade.
Suas palavras, todavia, deixavam os adultos em maus lençóis. Seus atos descabidos iam desde fazer seu doente avô dançar a tarantella e sua avó a ser fotografada fazendo caretas.
Sua mãe dizia: Francisco, se ajeita!
Com a sua entrada no mundo feroz e vago dos adultos, era sua hora de procurar uma oportunidade, pensar num emprego.

Ele sonhava e queria ciências humanas. Quem sabe História para poder aprofundar-se nos segredos e mitologias de gerações passadas. Quem sabe Geografia para entender os conflitos humanos atuais. Quem sabe Psicologia, para buscar entender as pessoas.
Seu pai queria que se dedicasse às armas, a defender sua pátria, assim como seu avô, veterano de guerra.
Sua mãe nada opinava. Não tinha formação e achava que ele só queria tudo rápido demais.
Chegada a hora da decisão, Francisco, no entanto, hesitou. Achou que não ficaria bem opor-se a vontade de seus pais. Não queria ser visto como um desagregador ou anarquista, como diria sua avó.
Achou melhor seguir os conselhos de seu pai e dedicou sua carreira intensamente à vida militar.
Enquanto pegava em armas, pensava em como seria se tivesse porte de pincéis para colorir e retratar o mundo tal qual via.
Ao ouvir discursos montados e quase que litúrgicos, pensava em como seria interpretar uma bela canção de protesto em um bom e sonoro rock and roll.
Casava-se mesmo sabendo que queria, de fato, continuar admirando e desfrutando das mais belas mulheres. Não acreditava no amor único, mas nas mais variadas formas de amar. Sua união fora meramente pensada por seus pais e os pais da noiva, amigos de infância.
Ele dizia: Eu te amo! Pensando em dizer tantas outras coisas que não sabia descrever.
Ele a amava e isso era certo, mas não entendia o porquê de ter de seguir a esse roteiro já tão recheado de clichês.
Nas férias, ia para Minas, Bauru ou Petrópolis, imaginando-se estar com mochila e amigos em Buenos Aires, no deserto do Atacama ou pelas ruínas de Machu Picchu.
Filhos vieram em seguida. Como pedia a receita, nomes de santos: Jorge, Paulo e Gabriel. Três homens para fortalecer a família, quando em seu imaginário, seria, Caetano, Gil ou quem sabe Raul, maluco beleza.
Logo em seguida, netos, o primeiro balbuciar de vovô. Em corridas improvisadas de velotrol projetava-se em uma motocicleta, vento na cara, estrada vazia e retilínea.
Ele não via se vivia. Um carro vinha e para salvar a vida de um rebento, a frente se atirou. Seu primeiro ato, assim encorajado, onde pensou e finalmente realizou.
Ele foi ao seu túmulo com todas as honras e glórias que um militar poderia receber. Bandeiras adornavam sua casa eterna e hinos tradicionais deram o toque aos ritos fúnebres.
No entanto, Francisco queria grandes rodas de conversas, risos e música de banda ao vivo.
Mas ele só ali se apercebia que já não era o único a pensar assim.

Feliz

Seria absurdo dizer que a paixão transforma as palavras em doces
Que promove alegrias
Que constrói expectativas, desejos
Que faz poesia

Que deixa o ar colorido
Que estabelece sentido, pontes
Entre o sonho e a realidade

O fato é que é verdade
Agora aqui nesse momento
O encontro foi certo
E o reconhecimento é lento

Peço que não demores
Que sua estadia seja longa e completa
Que o vão que recobre
Nunca deixe uma face aberta

Eu sei
A gente não se cansa
Das nossas brincadeiras, de provocações certeiras
Que nos fazem rir de nós
Eu simplesmente vejo seu sorriso, lembro da sua voz
E o meu dia está feliz, feliz

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Destino incerto

Vislumbro poesia onde há dor
Procuro um amor
E só encontro mais motivos para escrever

Prevejo distâncias
Só crio ânsias
Sem portos seguros para me segurar

Arrasto correntes
Trinco os dentes
Sem forças para gritar

Dando murro em ponta de faca
Atirando em coelhos
Sem conseguir acertar

Fugindo de flechas perdidas
Anônimas, bandidas
Quanto mais eu corro
Menos consigo achar

Meu medo é de um fim sozinho
Sem rumo, perdido
Sem ao menos conseguir me encontrar