MÚLTIPLO EU

Escrever é ao mesmo tempo dádiva e tragédia de servir ao outro e a si mesmo no intuito de amortecer os tropeços do caminho.



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Após

Como seria se talvez fosse
O que seria se acaso não fosse
Não é hora de perguntar
Nem de lamentar
O carro comprado, a casa na praia
O vizinho apertado e eu só na farra

Será?
Será que gastei bem meu tempo
Será?
Que fiz aquilo que achava certo?
Será?
Que vivi o que era preciso
Será?
Me pergunto agora que não estou vivo.

Eu só queria lhe informar

Eu só queria lhe informar
Que meu romance ou algo que eu não sabia explicar
Acabou por terminar

Não sei
Mas eu já sabia
Que algo não mais cabia entre nós

Talvez por isso queria que você soubesse
E se acaso quisesse
Poderíamos ser um só

Logo agora que você está por aqui
Logo agora que você pensou em dizer sim
Pergunto por que não?
Por que não deixar vazar ao coração?
Aceitar o que se é e o que se tem
Dar sentido à vida

Me dê um abraço apertado
Preciso do seu colo, você ao meu lado
Não quero ter que ir embora
Sem provar o que seria de nós
Se não houvesse receio, temor
Não quero ter que ir embora
Sem provar do que um dia a gente pode chamar de amor.

Você vai se transformar

A sua boa sorte me soa assim tão peculiar
Como pode alguém assim ter tantos princípios e deles discordar
Sabe
Acreditei que era aquela alma gêmea
Metade da laranja
Tampa de panela
Que era contra paixões efêmeras
E que pregava contra artificialidade de relações frágeis e fáceis

Agora
Você vai
Como que vira uma página
Como que rejeita um produto ou fecha uma janela
Como alguém que só não quer amar

Eu talvez entenderia
Se antes de um ponto final
Viessem, de explicação, os parênteses
Tenho muito a dizer
A explicar
E perguntar

Talvez você não tenha esse dever
E não seja meu dom fazer me entender, a querer saber
E eu não queria fechar conclusões, ficar no achar
Não tem jeito, eu sei
Acabou, Acabou
Acabou por terminar

No entanto, te agradeço
Dos males o menor
Me dás munição
Com isso que vivemos
A página virada, a janela fechada
Agora é poesia, canção.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mangue Seco

Sonhei que estava com sede
E aquilo tudo era só fantasia
Da cabeça surgia
Um distante canto de passarinhos
Um ninho feito só para proteger
Do verão que passou
Do inverno que dessa vez não ficou
Hibernado em mim

O vento que me acariciava o rosto
Era o mesmo que movia dunas e destruía casas
A ladainha cantada por meninos em coro
Para vender seu peixe , caranguejo e camarão,
Aos turistas enfeitiçava

Seu nome era seco
E algo já me dizia
Que ali era tudo molhado
E morava a alegria

A simplicidade e sensação de só se fazer o bem
De sem olhar a quem
Viver na tranqüilidade
Do bar de Dona Raimunda
De uma boa Senhora dos Navegantes
Que nos guiasse pelo mar ou até mesmo rio que nos encontrasse.

Era o mar
Esse mar
Que servia e dava alimento
Que também destruía aquilo que encontrava
Oito casas e quartos
Um milhão de reais
Valor de um prêmio de programa de televisão
Que Yemanjá levava com apenas uma mão.

E era cocada, sururu e camarão
Peixe robalo
Shopping na contramão
No entanto ninguém discordava
Havia progresso
Em nós ele estava.

Souvenir

É bom presentear
Materializar o afeto
Criar pontes de verdades
Dizendo sim, isso eu quero.

Eu digo não aos excessos
Exageros
Esmero um regalo verdadeiro
Sincero
Este é o ar que hoje eu respiro
E a quem eu devolvo um incentivo
Singelo

Sinta-se afortunado
É um correio que é belo
Em forma de poesia ou canção
É um lembrete, oração
Um direto recado que transmite emoção
Em um ícone, símbolo

Souvenir
Item que fortalece um elo
Lembrancinhas
Caneca, camisa, imã de geladeira
Penduricalho, vestido, camiseta
Mensageiro dos ventos

É meu presente ar
Pra te presentear
É pra lembrar de mim
Pra eu lembrar de ti

É pra de ti
É pra de ti lembrar
É pra lembrar, viu?