MÚLTIPLO EU

Escrever é ao mesmo tempo dádiva e tragédia de servir ao outro e a si mesmo no intuito de amortecer os tropeços do caminho.



domingo, 13 de abril de 2008

Armário

Abriu os olhos e percebeu que de repente estava ali.
Confessava para si mesmo que era um lugar que não queria estar, mas sabia que isso mais cedo ou mais tarde iria acontecer.
Parecia que já estava predestinado. Por isso, acreditava em instinto, intuição.
Não deu outra, só foi se distrair e lá acordar.
Está há algum tempo nesse lugar.
Não consegue mais sair.
Tem medo do que pode haver lá fora.
É ruim viver ali, é apertado, sujo e quente.
Só o fato de temer o que pode acontecer ao sair, o deixa inerte nessa situação.
Pensa: Será que mudar de tática agora não é uma opção mais interessante?
E lá se vão alguns anos.
Uma nova mudança de pensamento, minutos, horas.
E nenhuma decisão.
Perguntava-se: Aqui ainda posso encontrar palavras de afeto, e o que será dali em diante?Consigo carrega mágoas, acontecimentos guardados no fundo do peito que batem como estacas imprecisas e oportunas.
Sair pode parecer uma opção perigosa, entretanto pode ser uma esperança de liberdade.
Esse "pode ser" o incomoda.
Queria ter a certeza das coisas, dominar a razão e colocar sua emoção em um local onde pudesse ser completamente controlada.
Só o momento da decisão bastava para que ficasse confuso.
Não sabia o que fazer diante daquela situação.
Sair ou ficar era uma questão que realmente o fazia sofrer.
Os relógios corriam.
O momento da escolha, tão esperado por ele e que somente ele detinha o poder de criar, estava chegando.
Não que houvesse alguma fonte externa de estímulo para suas ações, mas buscava sempre ser o mais coerente possível com o seu querer, com a sua essência.
Ela ansiava pela liberdade, pois viver em um molde aparentemente perfeito o deixava inteiramente louco.
Questionava-se a respeito desse mundo perverso.Não queria viver nessa forma imposta, pré-fabricada.
Não queria viver um personagem afim de agradar a diversos autores.
Queria ser ele mesmo o autor de sua própria história: sua vida.
Quanta diferença há entre o querer e o poder, o pensar e o realizar!
Neste meio há tantos nuances, tantas emoções totalmente inenarráveis.
Sentia-se mal com isso, pois era de seu costume categorizar os sentimentos como quem categoriza elementos químicos ou qualquer outra matéria.
Parecia desistir de pensar pois constatou que esse processo demandava muitas de suas energias.
Mudava de estratégia.
Abria e fechava os olhos.
O sono não viera.
A porta finalmente se abrira.
Quem vinha?

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