Eu confesso
Há um rei na minha barriga
Que não me deixa afogar as minhas angústias
Que não permite meus dedos de discar seus números
E me arriscar, mesmo que seja para ouvir um alô assim, despreparado.
Ele talvez queira me proteger
Afinal só reina naquilo que pode conhecer
E coração dos outros é terra que ninguém pisa, já ouvi dizer
Mas porque insistem em esmagar o meu?
Ou até ignorar sua presença, existência
Ele só quer me proteger, eu sei
Mas já não quer me permitir ir além
Nesta censura que me impõe
Na ditadura de meu próprio ser
Não quero fugir, me exilar de mim
Parece, tudo indica, que me acostumei ao seu jeito de me esconder
Uns dizem solidão, é bom
Para poucos
Sentir-me só no meio da multidão
Já é hábito regular para mim
No entanto, tem horas que calo
Tento escutá-lo
Ele não para, se revira lá de dentro
E cá de fora eu respondo com atitudes inesperadas
Não espero consenso
Sempre me convenço
Ouço sua voz: “Te protejo”
Então, entendo
Mas me dá couraças, armaduras que são pesadas demais para carregar
Não são todas as horas em que quero vesti-las
Percebo-me em momentos que são raros
Em que quero andar nu por aí
Isento de rótulos, pré-conceitos
Ele me inferniza com seus comentários
Ácidos, chocantes e até irrelevantes
Ele pode ser até meu mal
Mas sempre há o outro lado da moeda
Ele é que nem a gente
Esconde mistérios, é complexo
Não sabe o que quer
Eu, e isso já aconteceu
Enfrento, vou além, me questiono
Me divido se devo tirá-lo ou não do seu habitat profundo
Ele me engana, é sacana
Quando tudo finge estar bem
Olha quem aparece em cena
Ele, despojado de ouro e brilhantes
Doido para me arrumar encrenca
Quando te olho de lado, tenha certeza
É ele quem me puxa
Quando te passo a perna
É ele quem faz força para eu te derrubar
Não vou apedrejá-lo
Ele quer minha defesa
Não quer que eu me apresente
Assim, frágil e só
Quer estar ao meu lado
Ao passo que se encontra dentro de mim
Só quer me ajudar, eu sinto
Mas não me deixar sentir, então minto
Como pode um criador tornar-se presa de sua própria criação
Ele é meu algoz
Ele é meu senhor
Se é que ele é concreto, de fato
Eu acho que vejo uma fórmula, sua composição
Ele é etéreo
Mas é um misto do que chamamos receio, medo, rancor e frustração.
19/03/2011
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