Benedito era o típico cidadão popular, do puro estilo brasileiro clássico. Morador da periferia, tem um emprego razoável, uma mulher razoável, uma vida razoável. Seu principal passatempo costumava ser o futebol. Ele vibrava a cada lance e costumava pagar ingressos para assistir aos jogos do seu time em um estádio perto de sua casa.
Benedito nunca tinha se apercebido do quanto o custo desses ingressos tinha de impacto no seu bolso e de que parte desse dinheiro, somado àquele suado de demais brasileiros como ele, era revertido para os clubes detentores dos times de futebol e que parte desse dinheiro ia para o pagamento do salário dos seus jogadores de futebol, tanto os favoritos quanto os renegados.
Benedito, do jeito que ia, nunca ganharia um salário sequer parecido. Ele não fazia nada para mudar sua rotina e contentava-se em assistir aos campeonatos, desde os estaduais até os internacionais, às vezes às quartas e às vezes aos finais de semana.
Para ele, os jogos eram emocionantes e ao mesmo tempo em que colocava seus punhos em riste cada vez que a bola se aproximava do gol adversário, consumia produtos oferecidos no intervalo, desde a loira gelada até o endividamento parcelado de eletrodomésticos. Tudo isso o fazia sentir pertencente à evolução econômica em que o país vivia.
A emissora de televisão, detentora dos direitos de exibição dos jogos pelos quais Benedito era aficionado, tinha por costume impor o horário de transmissão dos jogos sem questionar ao público, muito menos a Benedito sobre suas rotinas. O horário era determinado de acordo com sua própria programação, adequando às mais variadas obras de ficção que juravam refletir a vida real de cidadãos como Benedito. Ao contrário de sua vida particular, a emissora tinha o poder de decidir sobre a sua rotina e isso implicava certamente na sua programação diária desde o momento em que acordava até a hora que ia ou se ia para cama com sua esposa, caso também seu time obtivesse uma vitória.
A Confederação responsável pela organização do esporte no país, por sua vez, não se fazia de rogada. Tinha inestimável lucro com os direitos pagos pela emissora por conta da exibição dos jogos e repartia novamente aos clubes parte desse montante acumulado. Seu presidente, responsável por essa ascensão e eleito sem votação, há mais de vinte anos no poder, só via seu patrimônio sendo enriquecido graças ao seu simples esforço de trabalho.
Benedito era mais um que acreditava nisso. Até chegou a ver em matéria veiculada em emissora concorrente denúncias contra esse dirigente, mas não conseguia ligar os fatos e perceber a amizade verdadeira entre o dirigente e sua emissora, a favorita.
Benedito não só acreditava em seu clube, mas em seus jogadores. Torcia, brigava, defendia e chorava. Sim. Chorava. Nem após discussões homéricas com sua esposa lembrava-se de demonstrar tal emoção.
Certo dia, em um momento decisivo do campeonato nacional, aos quarenta e quatro minutos de um segundo tempo empatado, em meio a uma tentativa de defesa do time que defendia, um toque errado do grande ídolo brasileiro calou a voz e o coração do atordoado torcedor apaixonado.
Benedito, como dito, já não mais respirava. Sua mulher sente os ouvidos serem tapados e consegue ouvir somente aquilo que não queria imaginar. Ao mesmo tempo em que o cronômetro parava, a partida de Benedito apenas começava. Benedito era um torcedor agora para entrar para a história.
Findo o campeonato, sem título nem premiação de ambos os lados, os jogadores seguiam para o banho, para logo depois encontrarem com suas namoradas-modelos a bordo de seus conversíveis dotados rumando para suas imponentes mansões.
Benedito ia, agora em sua caixa grande de madeira coberta com aquela bandeira, do mesmo time pelo qual torcia e que até hoje dele nunca ouvira.
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