MÚLTIPLO EU

Escrever é ao mesmo tempo dádiva e tragédia de servir ao outro e a si mesmo no intuito de amortecer os tropeços do caminho.



sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Francisco se ajeita.

Rio de Janeiro, 04 de Outubro de 1964.
Nascia ali naquela pequena casa do subúrbio carioca, o pequeno Francisco, em homenagem ao dia do santo de mesmo nome.
Desde pequeno, autêntico, Francisco já corria quando os outros de seu tempo e tamanho, engatinhavam.
Já falava, enquanto os outros balbuciavam palavras sem sentido.
Já, lia quando os outros ainda não sabiam sequer completar frases.
Era um menino a frente do seu tempo.
Com o chegar das espinhas, cravos e demais preocupações tolas, tinha um modo peculiar de paquerar quem quer que fosse. Era direto, engraçado e por isso conquistava a todos com sua espontaneidade.
Suas palavras, todavia, deixavam os adultos em maus lençóis. Seus atos descabidos iam desde fazer seu doente avô dançar a tarantella e sua avó a ser fotografada fazendo caretas.
Sua mãe dizia: Francisco, se ajeita!
Com a sua entrada no mundo feroz e vago dos adultos, era sua hora de procurar uma oportunidade, pensar num emprego.

Ele sonhava e queria ciências humanas. Quem sabe História para poder aprofundar-se nos segredos e mitologias de gerações passadas. Quem sabe Geografia para entender os conflitos humanos atuais. Quem sabe Psicologia, para buscar entender as pessoas.
Seu pai queria que se dedicasse às armas, a defender sua pátria, assim como seu avô, veterano de guerra.
Sua mãe nada opinava. Não tinha formação e achava que ele só queria tudo rápido demais.
Chegada a hora da decisão, Francisco, no entanto, hesitou. Achou que não ficaria bem opor-se a vontade de seus pais. Não queria ser visto como um desagregador ou anarquista, como diria sua avó.
Achou melhor seguir os conselhos de seu pai e dedicou sua carreira intensamente à vida militar.
Enquanto pegava em armas, pensava em como seria se tivesse porte de pincéis para colorir e retratar o mundo tal qual via.
Ao ouvir discursos montados e quase que litúrgicos, pensava em como seria interpretar uma bela canção de protesto em um bom e sonoro rock and roll.
Casava-se mesmo sabendo que queria, de fato, continuar admirando e desfrutando das mais belas mulheres. Não acreditava no amor único, mas nas mais variadas formas de amar. Sua união fora meramente pensada por seus pais e os pais da noiva, amigos de infância.
Ele dizia: Eu te amo! Pensando em dizer tantas outras coisas que não sabia descrever.
Ele a amava e isso era certo, mas não entendia o porquê de ter de seguir a esse roteiro já tão recheado de clichês.
Nas férias, ia para Minas, Bauru ou Petrópolis, imaginando-se estar com mochila e amigos em Buenos Aires, no deserto do Atacama ou pelas ruínas de Machu Picchu.
Filhos vieram em seguida. Como pedia a receita, nomes de santos: Jorge, Paulo e Gabriel. Três homens para fortalecer a família, quando em seu imaginário, seria, Caetano, Gil ou quem sabe Raul, maluco beleza.
Logo em seguida, netos, o primeiro balbuciar de vovô. Em corridas improvisadas de velotrol projetava-se em uma motocicleta, vento na cara, estrada vazia e retilínea.
Ele não via se vivia. Um carro vinha e para salvar a vida de um rebento, a frente se atirou. Seu primeiro ato, assim encorajado, onde pensou e finalmente realizou.
Ele foi ao seu túmulo com todas as honras e glórias que um militar poderia receber. Bandeiras adornavam sua casa eterna e hinos tradicionais deram o toque aos ritos fúnebres.
No entanto, Francisco queria grandes rodas de conversas, risos e música de banda ao vivo.
Mas ele só ali se apercebia que já não era o único a pensar assim.

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